Sexualidade

Falta de desejo sexual: quando procurar ajuda psicológica?

O desejo sexual pode variar por muitos motivos. Entenda quando a mudança merece atenção e como fatores emocionais e relacionais podem ser trabalhados.

Por Luana Hochmann, CRP 08/32094 4 min de leitura

Casal em momento de distância emocional no quarto, sem conteúdo sexual explícito.

Desejo sexual não funciona como um botão que deveria permanecer sempre ligado.

Ele muda ao longo da vida e pode ser influenciado por cansaço, estresse, fase do relacionamento, saúde, medicamentos, mudanças hormonais, autoestima, rotina e pela qualidade da conexão com a outra pessoa.

Por isso, perceber menos desejo não significa automaticamente que existe um problema clínico.

A questão ganha importância quando a mudança provoca sofrimento, gera conflitos ou faz com que a pessoa se afaste de situações íntimas que antes eram vividas de outra forma.

Não existe uma frequência “normal” que sirva para todo mundo

Comparar a própria vida sexual com a de amigos, redes sociais ou números encontrados na internet costuma produzir mais pressão do que clareza.

Pessoas e casais têm ritmos diferentes.

Até dentro do mesmo relacionamento, é comum que o desejo varie ao longo do tempo. Trabalho intenso, chegada de filhos, mudanças de saúde, conflitos, luto, estresse financeiro e outras transições podem modificar a disponibilidade emocional e física para a intimidade.

O ponto não é atingir uma frequência ideal.

É perceber se existe uma mudança que incomoda você ou se a diferença de desejo entre o casal está se transformando em sofrimento.

Desejo é influenciado por vários fatores ao mesmo tempo

Uma queda de desejo pode ter mais de uma explicação.

Entre os fatores que podem participar estão:

  • estresse e sobrecarga;
  • ansiedade ou humor deprimido;
  • baixa autoestima ou desconforto com a própria imagem;
  • conflitos e ressentimentos no relacionamento;
  • dificuldade de comunicar preferências e limites;
  • dor ou desconforto durante relações;
  • mudanças hormonais;
  • algumas condições de saúde;
  • determinados medicamentos;
  • experiências negativas anteriores;
  • privação de sono e exaustão;
  • pressão para “ter vontade”.

Essa lista mostra por que respostas simplistas raramente ajudam.

Às vezes, a tentativa de descobrir “quem é o culpado” só acrescenta mais tensão a uma questão que já é multifatorial.

A pressão pode piorar o problema

Quando uma pessoa percebe que está com menos desejo, pode começar a se observar o tempo todo.

“Será que hoje vou ter vontade?”

“Meu parceiro vai ficar chateado?”

“Tem alguma coisa errada comigo?”

A intimidade passa a funcionar como um teste.

Em vez de proximidade, entra a obrigação de provar que está tudo bem.

Dentro do casal, a outra pessoa pode interpretar a diminuição do desejo como rejeição, falta de amor ou desinteresse. Se isso vira cobrança, a pressão aumenta ainda mais.

Por isso, muitas vezes o trabalho começa não no sexo em si, mas na forma como o problema está sendo interpretado e conversado.

Quando a psicoterapia pode ajudar

A psicoterapia pode ser útil quando aspectos emocionais, comportamentais ou relacionais estão envolvidos.

Alguns exemplos:

  • o desejo diminui principalmente em períodos de ansiedade ou estresse;
  • existem pensamentos de inadequação durante momentos íntimos;
  • vergonha ou culpa dificultam viver a sexualidade;
  • conflitos do casal se acumulam e afetam a proximidade;
  • existe dificuldade de falar sobre preferências, desconfortos e limites;
  • experiências anteriores ainda influenciam o presente;
  • a pessoa sente que perdeu conexão com o próprio corpo ou com seus desejos;
  • a vida sexual passou a ser vivida sob cobrança.

Na terapia sexual, essas questões podem ser trabalhadas em um espaço sigiloso e sem julgamento.

Quando também vale procurar avaliação médica

Como desejo sexual também pode ser influenciado por fatores físicos, nem toda mudança deve ser explicada apenas pela psicologia.

Uma avaliação médica pode ser especialmente importante quando existe:

  • dor durante relações;
  • mudança repentina e persistente sem motivo claro;
  • sintomas físicos associados;
  • suspeita de alteração hormonal;
  • início da mudança após determinado medicamento;
  • condição de saúde que possa interferir na sexualidade.

Não interrompa ou altere medicamentos por conta própria por causa de efeitos sexuais percebidos. Esse tipo de decisão precisa ser discutido com o profissional responsável pela prescrição.

Em alguns casos, acompanhamento psicológico e avaliação médica acontecem em paralelo.

E se o casal tem níveis de desejo diferentes?

Diferença de desejo é comum.

O sofrimento costuma aparecer quando essa diferença começa a ser interpretada como falta de amor, obrigação ou rejeição constante.

Uma pessoa pode sentir que está sempre cobrando. A outra pode sentir que toda aproximação terminará em pressão.

Com o tempo, até gestos de carinho podem ficar tensos porque ninguém sabe se um abraço será entendido como convite, recusa ou cobrança.

Nesses casos, trabalhar comunicação, expectativas e formas de intimidade pode ser tão importante quanto falar diretamente sobre frequência sexual.

Quando a questão está fortemente ligada à dinâmica da relação, a terapia de casal também pode ser considerada.

Você não precisa esperar a situação virar uma crise

É possível procurar ajuda antes que o assunto se torne uma fonte permanente de conflito.

Se a mudança no desejo está causando sofrimento, afastamento ou dúvidas, conversar com um profissional pode ajudar a separar o que é pressão externa, o que pertence à relação, o que é emocional e o que merece investigação de saúde.

O objetivo não é obrigar alguém a sentir mais desejo.

É compreender o que está acontecendo e construir uma relação com a sexualidade que seja mais segura, consciente e coerente com a própria experiência.

Esse tema tem a ver com o seu momento?

Se você se reconheceu em algo que leu aqui, podemos conversar sobre isso em uma sessão.

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